A Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, conhecida popularmente como Corpus Christi, é uma das celebrações mais expressivas do calendário litúrgico católico. Ela é dedicada de modo especial à adoração pública da Eucaristia, na qual a Igreja reconhece a presença real, verdadeira e substancial de Jesus Cristo. Embora a instituição da Eucaristia seja recordada na Quinta-feira Santa, o clima penitencial da Semana Santa não permite uma celebração festiva e prolongada desse mistério. Por isso, a Igreja reservou um dia próprio para agradecer e louvar solenemente o dom do Corpo e do Sangue do Senhor.
A origem da festa está ligada a Santa Juliana de Mont-Cornillon, religiosa agostiniana da região de Liège, na atual Bélgica, que no início do século XIII teve visões interpretadas como um chamado à criação de uma festa em honra do Santíssimo Sacramento. Com o apoio de teólogos e clérigos locais, o bispo Roberto de Thourotte instituiu a celebração na diocese de Liège em 1246. Anos depois, o antigo arquidiácono de Liège, Jacques Pantaléon, tornou-se o Papa Urbano IV. Em 1264, por meio da bula Transiturus de hoc mundo, ele estendeu a festa a toda a Igreja, num contexto em que a tradição também associa o célebre Milagre Eucarístico de Bolsena, ocorrido em 1263.
Para a nova celebração, Urbano IV confiou a São Tomás de Aquino a composição do ofício litúrgico e dos textos da Missa. Dessa obra nasceram hinos que se tornaram patrimônio da piedade eucarística, como o Pange lingua, cujas estrofes finais formam o conhecido Tantum ergo, e a sequência Lauda Sion. Como Urbano IV morreu pouco depois de promulgar a bula, a festa demorou a se difundir universalmente. Sua observância foi reafirmada no contexto do Concílio de Vienne (1311-1312) e consolidada com a publicação das Clementinas pelo Papa João XXII em 1317, a partir de quando se difundiu rapidamente por toda a cristandade ocidental.
Do ponto de vista teológico, Corpus Christi é uma profissão de fé pública na doutrina da transubstanciação, segundo a qual, pela consagração, toda a substância do pão se converte na substância do Corpo de Cristo e toda a substância do vinho na substância do seu Sangue. O Concílio de Trento, em sua XIII sessão (1551), reafirmou essa verdade e defendeu expressamente o costume de levar o Santíssimo Sacramento em procissão, como testemunho da vitória de Cristo e da gratidão do povo cristão. O Catecismo da Igreja Católica ensina que Cristo está presente na Eucaristia de modo único, com seu corpo, sangue, alma e divindade, e que a Igreja sempre prestou a esse sacramento o culto de adoração. Em sua encíclica Ecclesia de Eucharistia (2003), São João Paulo II recordou que a Igreja vive da Eucaristia, fonte e ápice de toda a vida cristã.
A solenidade é celebrada na quinta-feira seguinte ao Domingo da Santíssima Trindade, recordando a ligação com a Quinta-feira Santa. Em diversos países, porém, onde não é dia de preceito civilmente reconhecido, a celebração é transferida para o domingo seguinte, conforme permitido pelas normas litúrgicas. Após a reforma litúrgica posterior ao Concílio Vaticano II, a festa recebeu o nome oficial de Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, unindo numa só celebração a devoção ao Corpo e ao Preciosíssimo Sangue do Senhor. O Código de Direito Canônico recomenda que, onde for possível a juízo do Bispo diocesano, se realize uma procissão pública, sobretudo nesta solenidade, como testemunho de veneração para com a Santíssima Eucaristia.
A procissão eucarística é o elemento mais característico da festa. Após a Missa, o sacerdote conduz a hóstia consagrada no ostensório, normalmente sob um pálio, enquanto os fiéis acompanham com cantos, orações e incenso, às vezes com paradas em altares preparados ao longo do caminho para a bênção do Santíssimo. Em países de tradição luso-brasileira, tornou-se costume enfeitar as ruas com tapetes coloridos feitos de serragem, sal, pó de café, flores e outros materiais, compondo símbolos eucarísticos e cenas bíblicas. Essa tradição envolve comunidades inteiras em dias de preparação e manifesta, de modo artístico, a fé do povo na passagem do Senhor pelas ruas da cidade.
Mais do que uma manifestação cultural, Corpus Christi convida cada fiel a renovar sua fé, sua reverência e seu amor pela Eucaristia. A festa recorda que Cristo não permanece apenas no interior dos templos, mas quer caminhar com seu povo e santificar a vida cotidiana. Ela também estimula a prática da adoração eucarística, a participação frequente e digna na Comunhão e o compromisso com a caridade, pois quem recebe o Corpo de Cristo é chamado a reconhecê-lo também nos irmãos, especialmente nos mais pobres. Assim, a solenidade une liturgia, devoção popular e missão, expressando a certeza de que o Senhor permanece realmente presente no meio da sua Igreja até o fim dos tempos.