O jejum — privação total ou parcial de alimento por determinado período — e a abstinência — renúncia a certos alimentos, sobretudo carne — são práticas penitenciais enraizadas nas tradições bíblicas de Israel e retomadas pelo cristianismo desde sua origem. No Antigo Testamento, o jejum acompanha momentos de luto (2Sm 1,12), de arrependimento coletivo (Jn 3,5–10), de preparação para a revelação divina (Ex 34,28; 1Rs 19,8) e de intercessão urgente (Est 4,16). Jesus, ao iniciar seu ministério público, jeujou quarenta dias no deserto (Mt 4,2), conferindo ao jejum um caráter messiânico e modelar.
A Igreja fixou dois dias obrigatórios de jejum e abstinência: a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa. O jejum, neste contexto, consiste em fazer apenas uma refeição completa por dia, permitindo-se as outras refeições leves sem ultrapassar a quantidade de uma refeição completa; obriga os adultos até os 59 anos que não tenham impedimento legítimo. A abstinência da carne — mantida em todas as sextas-feiras do ano pela disciplina da Igreja Universal, embora conferências episcopais possam substituí-la por outra forma de penitência — recorda a morte de Cristo na Cruz numa sexta-feira.
A distinção terminológica entre jejum e abstinência é técnica mas importante: jejum refere-se à quantidade de alimento ingerido; abstinência, à qualidade (tipo de alimento). É possível guardar a abstinência sem o jejum, e vice-versa. Na tradição oriental — especialmente nas Igrejas Uniatas e Ortodoxas — os períodos e a intensidade do jejum são significativamente mais rigorosos: o jejum pré-pascal (Grande Quaresma) exclui carne, laticínios, ovos e azeite em dias determinados, e pode chegar à abstinência total até ao pôr do sol.
O sentido teológico do jejum transcende a dimensão ascética individual. A Instrução Paenitemini de Paulo VI (1966) distingue três dimensões: a penitencial (expressão de arrependimento e conversão interior), a comunhão solidária com os pobres e famintos, e a escatológica (antecipação do banquete do Reino que esperamos). O jejum praticado sem misericórdia para com o próximo é explicitamente criticado pelo profeta Isaías (Is 58,3–7): «O jejum que escolho não é este? Soltar as cadeias injustas... repartir teu pão com o faminto.» Nessa linha, o movimento do «Meatless Monday» e iniciativas de fasting com destinação dos alimentos poupados a obras de caridade reinterpretam a prática na linguagem contemporânea.