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A Novena: forma de oração da Igreja

Origem bíblica, história, significado teológico e prática da novena, oração perseverante de nove dias que a Igreja recomenda aos fiéis.

A novena é uma forma de oração devocional que se prolonga por nove dias consecutivos, ou por nove semanas ou meses, com uma intenção determinada. O fiel pode preparar-se para uma festa litúrgica, pedir uma graça particular, agradecer um benefício recebido ou interceder pelos falecidos. Embora não pertença à liturgia oficial da Igreja, a novena é uma das expressões mais difundidas da piedade popular católica. A Igreja a acolhe e a recomenda como escola de perseverança na oração, desde que vivida em harmonia com a fé e com a vida sacramental.

O fundamento bíblico mais citado para a novena está nos Atos dos Apóstolos. Após a Ascensão do Senhor, os discípulos retornaram ao Cenáculo e ali, segundo o texto sagrado, 'todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com algumas mulheres, entre elas Maria, a mãe de Jesus' (At 1,14). Entre a Ascensão e Pentecostes transcorreram cerca de nove dias de espera orante pelo Espírito Santo prometido. Por isso a Novena ao Espírito Santo é considerada o modelo de todas as demais. O Papa Leão XIII, na encíclica 'Divinum Illud Munus' (1897), recomendou vivamente a toda a Igreja que se celebrasse anualmente essa novena antes da solenidade de Pentecostes.

Historicamente, a prática também dialoga com costumes do mundo antigo. Os romanos conheciam as 'novendialia', ritos de luto que se estendiam por nove dias após a morte de alguém. Os primeiros cristãos purificaram e transformaram esse costume, dando-lhe sentido de oração pelos defuntos à luz da ressurreição. Um vestígio disso permanece nos 'novendiales', os nove dias de Missas de sufrágio celebradas em Roma após a morte de um Papa. Na Idade Média e sobretudo na época moderna, multiplicaram-se as novenas de preparação para as festas do Senhor, da Virgem Maria e dos santos. Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja, compôs e difundiu diversas novenas, como a do Natal, contribuindo para sua popularidade.

As novenas costumam ser classificadas segundo sua finalidade. Há novenas de preparação, que antecedem uma solenidade, como a Novena de Natal, iniciada em 16 de dezembro, ou a Novena da Imaculada Conceição. Há novenas de súplica, com as quais se pede uma graça a Deus por intercessão de Nossa Senhora ou de algum santo, como as dedicadas a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, ao Sagrado Coração de Jesus ou a São Judas Tadeu. Há ainda novenas de sufrágio pelas almas dos falecidos. Merece destaque a Novena da Divina Misericórdia, que, segundo os escritos de Santa Faustina Kowalska, começa na Sexta-feira Santa e se conclui no domingo seguinte à Páscoa, instituído por São João Paulo II como Domingo da Divina Misericórdia.

O valor teológico da novena reside sobretudo na perseverança. O próprio Cristo ensinou a 'orar sempre, sem jamais desfalecer' (Lc 18,1), ilustrando essa verdade com a parábola da viúva insistente diante do juiz. O Catecismo da Igreja Católica recorda que a oração exige esforço e fidelidade, e que a perseverança é sinal de confiança filial no Pai. Ao repetir dia após dia a mesma intenção, o fiel não pretende convencer a Deus, que conhece nossas necessidades antes que as peçamos (cf. Mt 6,8). Antes, é o próprio coração humano que se dilata, se purifica e se dispõe a acolher a vontade divina. O número nove, por sua vez, tem valor simbólico de plenitude e espera, recordando também os nove meses em que o Verbo encarnado foi gestado no seio da Virgem Maria.

A Igreja adverte, contudo, contra desvios que podem deformar essa devoção. A novena não é uma fórmula mágica nem um mecanismo que obriga Deus a conceder um favor. Atribuir eficácia automática ao simples número de dias ou à exata repetição de palavras configura superstição, que o Catecismo descreve como desvio do sentimento religioso (cf. CIC 2111). O Senhor alertou: 'Nas vossas orações, não multipliqueis palavras, como fazem os pagãos' (Mt 6,7). Também devem ser rejeitadas as chamadas correntes de oração que prometem desgraças a quem não as copiar e distribuir. O Diretório sobre a Piedade Popular e a Liturgia, publicado pela Congregação para o Culto Divino em 2001, recomenda que as novenas se inspirem na Sagrada Escritura, estejam em harmonia com o ano litúrgico e conduzam os fiéis aos sacramentos, especialmente à Confissão e à Eucaristia.

No Brasil e em todo o mundo lusófono, a novena ocupa lugar privilegiado na vida das comunidades. São muito conhecidas a Novena de Nossa Senhora Aparecida, que antecede a festa de 12 de outubro, as novenas dos padroeiros nas paróquias e a Novena de Natal vivida em famílias e grupos de vizinhos. O Manual das Indulgências concede indulgência parcial aos fiéis que participam piedosamente das novenas públicas antes do Natal, de Pentecostes e da Imaculada Conceição. Assim, a novena revela-se uma pedagogia da fé que une oração pessoal e comunitária, confiança na intercessão dos santos e abertura à ação do Espírito Santo, à imagem dos Apóstolos que, reunidos com Maria, esperaram perseverantes o dom do alto.

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