São Paulo Apóstolo, chamado de 'Apóstolo dos Gentios' (Rm 11,13), é uma das figuras mais decisivas da história da Igreja. Nascido em Tarso, na Cilícia, por volta do ano 5 a 10 d.C., recebeu o nome hebraico de Saulo e era também cidadão romano por nascimento, condição que mais tarde lhe seria útil em sua missão. Pertencia à tribo de Benjamim e foi educado na mais estrita observância da Lei, como ele mesmo afirma: 'circuncidado ao oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu filho de hebreus; quanto à Lei, fariseu' (Fl 3,5). Formou-se em Jerusalém aos pés do célebre mestre Gamaliel (At 22,3) e, segundo o costume judaico, aprendeu também um ofício manual, o de fabricante de tendas.
Zeloso defensor das tradições de seus pais, Saulo viu no movimento dos seguidores de Jesus de Nazaré uma ameaça à fé de Israel. Os Atos dos Apóstolos o apresentam presente no martírio de Santo Estêvão, guardando as vestes daqueles que o apedrejavam e aprovando sua morte (At 7,58; 8,1). Em seguida, passou a perseguir ativamente a Igreja, entrando nas casas, prendendo homens e mulheres e lançando-os na prisão (At 8,3). O próprio Apóstolo recordaria depois, com dor, esse período: 'perseguia sobremaneira a Igreja de Deus e a devastava' (Gl 1,13).
O episódio central de sua vida ocorreu no caminho de Damasco, para onde se dirigia com cartas do sumo sacerdote a fim de prender os cristãos daquela cidade. O relato aparece três vezes nos Atos dos Apóstolos (At 9; 22; 26), sinal de sua importância para a Igreja primitiva. Envolvido por uma luz vinda do céu, Saulo caiu por terra e ouviu uma voz: 'Saulo, Saulo, por que me persegues?'. Ao perguntar 'Quem és tu, Senhor?', recebeu a resposta: 'Eu sou Jesus, a quem tu persegues' (At 9,4-5). Cego por três dias, foi conduzido a Damasco, onde jejuou e orou até que o discípulo Ananias, enviado pelo Senhor, lhe impôs as mãos. Então caíram-lhe dos olhos como que escamas, recuperou a vista e foi batizado (At 9,17-18).
A tradição cristã sempre viu nesse acontecimento não apenas uma mudança moral, mas um verdadeiro encontro pessoal com Cristo ressuscitado, que fundamenta o apostolado de Paulo. Ele mesmo se inclui entre as testemunhas da Ressurreição: 'Em último lugar, apareceu também a mim, como a um abortivo' (1Cor 15,8). O Catecismo da Igreja Católica recorda que Paulo descreve sua conversão como o momento em que Deus 'revelou em mim o seu Filho' (Gl 1,16; cf. CIC 442). Teologicamente, a pergunta 'por que me persegues?' é de grande profundidade: ao perseguir os discípulos, Saulo perseguia o próprio Cristo. Daqui brota a intuição paulina da Igreja como Corpo de Cristo (1Cor 12,27; Ef 1,22-23), doutrina que a teologia desenvolveria sob o nome de Corpo Místico. Vale notar que a conversão de Paulo não foi um abandono do Deus de Israel, mas o reconhecimento de que em Jesus se cumpriam as promessas feitas aos pais.
Após a conversão, Paulo retirou-se para a Arábia e voltou a Damasco; somente três anos depois subiu a Jerusalém para encontrar-se com Pedro (Gl 1,17-18). Introduzido na comunidade por Barnabé, iniciou com ele a missão em Antioquia, onde os discípulos pela primeira vez foram chamados cristãos (At 11,26). A partir dos Atos 13,9, passa a ser chamado habitualmente pelo nome romano Paulo, mais adequado à sua missão entre os pagãos. Realizou três grandes viagens missionárias pela Ásia Menor, Macedônia e Grécia, fundando comunidades em cidades como Filipos, Tessalônica, Corinto e Éfeso. No Concílio de Jerusalém (At 15), defendeu, em comunhão com Pedro e Tiago, que os gentios convertidos não estavam obrigados à circuncisão e às prescrições da Lei mosaica, afirmando a salvação pela graça de Cristo.
O legado escrito de Paulo é imenso: treze cartas do Novo Testamento trazem seu nome, entre elas Romanos, Coríntios, Gálatas, Efésios e Filipenses. Nelas se encontram temas fundamentais da fé católica, como a justificação pela graça mediante a fé que opera pela caridade (Gl 5,6), o mistério da cruz, a Eucaristia (1Cor 11,23-26), a ressurreição dos mortos e o hino à caridade (1Cor 13). Sua espiritualidade se resume na célebre afirmação: 'Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim' (Gl 2,20). Por Cristo, considerou tudo como perda, 'por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor' (Fl 3,8). Preso em Jerusalém e levado a Roma após apelar a César, segundo a tradição sofreu o martírio por decapitação durante a perseguição de Nero, por volta do ano 67, sendo sepultado no local onde hoje se ergue a Basílica de São Paulo Fora dos Muros.
A Igreja celebra a festa da Conversão de São Paulo em 25 de janeiro, data que encerra a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, e a solenidade dos Santos Pedro e Paulo em 29 de junho, honrando as duas colunas da Igreja de Roma. O Papa Bento XVI dedicou-lhe um Ano Paulino (2008-2009), por ocasião do bimilenário de seu nascimento, apresentando-o como modelo de evangelizador e de homem transformado pela graça. A conversão de São Paulo permanece, assim, um sinal perene de que nenhum coração está fora do alcance da misericórdia divina e de que todo verdadeiro encontro com Cristo se torna, necessariamente, missão: 'Ai de mim, se eu não evangelizar!' (1Cor 9,16).