Santo Inácio de Antioquia é um dos mais importantes Padres Apostólicos, isto é, dos escritores cristãos que conheceram os Apóstolos ou seus discípulos imediatos. Segundo o historiador Eusébio de Cesareia, foi o terceiro bispo de Antioquia da Síria, sucedendo a Evódio, que por sua vez sucedera ao apóstolo São Pedro. A tradição o associa também ao círculo de discípulos do apóstolo São João. Ele próprio se apresentava com o sobrenome de Teóforo, isto é, 'portador de Deus', expressão que resume sua espiritualidade de profunda união com Cristo. Sua memória obrigatória é celebrada no Calendário Romano Geral em 17 de outubro, data fixada na reforma litúrgica de 1969. Antes dela, a festa era celebrada em 1º de fevereiro.
Durante o reinado do imperador Trajano, provavelmente por volta do ano 107, Inácio foi preso em Antioquia por causa de sua fé e condenado a ser lançado às feras em Roma. A longa viagem, feita sob escolta de soldados que ele chamava de 'dez leopardos', tornou-se uma verdadeira peregrinação de comunhão eclesial. Nas cidades por onde passava, especialmente em Esmirna e Trôade, era visitado por bispos, presbíteros e fiéis das comunidades da Ásia Menor, que vinham confortá-lo e receber sua bênção. Em Esmirna encontrou-se com São Policarpo, bispo daquela cidade e discípulo de São João, com quem estabeleceu laços de profunda amizade espiritual.
Dessa viagem nasceram sete cartas, cuja autenticidade é amplamente reconhecida pelos estudiosos e que constituem um tesouro da literatura cristã primitiva. De Esmirna escreveu às Igrejas de Éfeso, Magnésia e Trales, bem como aos cristãos de Roma. De Trôade escreveu às Igrejas de Filadélfia e de Esmirna, e ainda uma carta pessoal a Policarpo. Esses textos, redigidos com ardor e urgência, revelam um pastor preocupado com a unidade dos fiéis, com a fidelidade à doutrina recebida dos Apóstolos e com a perseverança diante das heresias que ameaçavam as comunidades nascentes.
No plano doutrinal, Inácio combateu vigorosamente o docetismo, heresia que negava a realidade da carne de Cristo e afirmava que Ele apenas parecera sofrer. Contra ela, o santo bispo proclamou com insistência a verdadeira encarnação, paixão, morte e ressurreição do Senhor. Afirmou que Jesus Cristo é verdadeiramente da estirpe de Davi segundo a carne e Filho de Deus segundo a vontade e o poder divinos. Também advertiu contra os judaizantes, que pretendiam impor aos cristãos práticas da Lei mosaica. Sua cristologia, ao mesmo tempo bíblica e profundamente mística, antecipa as formulações dos grandes concílios posteriores.
Inácio é testemunha privilegiada da estrutura hierárquica da Igreja primitiva, com seu tríplice grau de bispo, presbíteros e diáconos. Para ele, a unidade com o bispo é condição da unidade com Cristo: 'Onde estiver o bispo, aí esteja a comunidade, assim como onde está Jesus Cristo, aí está a Igreja católica'. Nessa passagem da Carta aos Esmirnenses aparece, pela primeira vez na literatura cristã conhecida, a expressão 'Igreja católica', no sentido de Igreja universal. Na Carta aos Romanos, saúda a Igreja de Roma como aquela que 'preside na caridade', expressão que a tradição viria a ler como um reconhecimento precoce do primado romano.
A Eucaristia ocupa lugar central em seu pensamento. Inácio a apresenta como a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, que sofreu por nossos pecados e que o Pai ressuscitou, e a chama de 'remédio de imortalidade e antídoto para não morrer'. A celebração eucarística legítima, presidida pelo bispo ou por quem ele designar, é para ele o sinal visível da unidade da Igreja. Essa visão sacramental se une à sua espiritualidade do martírio: na Carta aos Romanos, suplica aos fiéis que não intercedam para livrá-lo da morte, pois deseja configurar-se plenamente a Cristo: 'Sou trigo de Deus e serei moído pelos dentes das feras para me tornar pão puro de Cristo'.
Segundo a tradição, Inácio sofreu o martírio no anfiteatro de Roma, devorado pelas feras, como tanto desejara. Suas relíquias foram levadas de volta a Antioquia e, séculos mais tarde, transladadas para Roma, onde são veneradas na Basílica de São Clemente. Seu nome figura no Cânon Romano, entre os mártires recordados na oração Nobis quoque peccatoribus, e trechos de suas cartas são lidos no Ofício das Leituras da Liturgia das Horas. O Papa Bento XVI, em catequese dedicada ao santo em 2007, destacou nele o 'místico da unidade' e o exemplo de um amor apaixonado por Cristo, que permanece como luz para os pastores e fiéis de todos os tempos.