Edith Stein, conhecida na vida religiosa como Santa Teresa Benedita da Cruz, é uma das figuras mais luminosas do século XX. Filósofa de rigor excepcional, judia de nascimento, convertida ao catolicismo e monja carmelita, ela uniu em sua existência a busca intelectual pela verdade e a entrega total a Cristo crucificado. Morta na câmara de gás de Auschwitz em 9 de agosto de 1942, foi canonizada por São João Paulo II em 1998 e proclamada copadroeira da Europa no ano seguinte, ao lado de Santa Brígida da Suécia e de Santa Catarina de Sena.
Nasceu em 12 de outubro de 1891, em Breslau, então pertencente à Alemanha e hoje Wrocław, na Polônia, no dia em que a família celebrava o Yom Kippur, o Dia da Expiação. Era a caçula de onze filhos de uma família judia praticante. Perdeu o pai ainda criança, e sua mãe, Auguste Stein, mulher de fé profunda e grande energia, assumiu os negócios da família. Na adolescência, Edith abandonou a prática religiosa e declarou-se ateia, dedicando-se com paixão aos estudos. Ingressou na Universidade de Breslau e, em 1913, transferiu-se para Göttingen, atraída pela fenomenologia de Edmund Husserl. Durante a Primeira Guerra Mundial, serviu como enfermeira voluntária da Cruz Vermelha num hospital militar. Em 1916 defendeu em Friburgo, com a máxima distinção, a tese Sobre o problema da empatia, tornando-se em seguida assistente de Husserl.
O caminho de Edith rumo à fé foi marcado por encontros decisivos. Impressionou-a profundamente o testemunho de Max Scheler e, sobretudo, a serenidade cristã de Anna Reinach diante da morte do marido, o filósofo Adolf Reinach, caído na guerra. Ela própria diria mais tarde que ali viu pela primeira vez a Cruz e a força divina que ela comunica a quem a carrega. O momento culminante deu-se no verão de 1921, na casa de sua amiga Hedwig Conrad-Martius, em Bergzabern: Edith leu numa só noite a autobiografia de Santa Teresa de Ávila e, ao terminar, concluiu: 'Isto é a verdade'. Recebeu o Batismo em 1º de janeiro de 1922. A conversão causou grande dor à mãe, mas Edith continuou a acompanhá-la à sinagoga, sem jamais renegar sua origem judaica.
Impedida, por ser mulher, de obter a habilitação para a docência universitária, Edith dedicou-se ao ensino no colégio das dominicanas de Santa Madalena, em Speyer, entre 1923 e 1931. Nesse período traduziu para o alemão escritos de São John Henry Newman e as Quaestiones disputatae de veritate de Santo Tomás de Aquino, empreendendo um diálogo fecundo entre a fenomenologia moderna e a filosofia escolástica. Tornou-se conferencista requisitada em toda a Europa de língua alemã, abordando especialmente a vocação e a dignidade da mulher, a educação e a formação da pessoa. Em 1932 assumiu um posto no Instituto Alemão de Pedagogia Científica em Münster, mas em 1933, com a ascensão do nazismo e as leis antissemitas, perdeu o cargo. Nesse mesmo ano escreveu ao Papa Pio XI, denunciando a perseguição aos judeus e advertindo sobre a natureza anticristã do regime.
Em 14 de outubro de 1933, realizou o antigo desejo de entrar no Carmelo de Colônia, recebendo o nome de Teresa Benedita da Cruz, que exprimia sua consciência de ser abençoada pela Cruz. A vida contemplativa não extinguiu sua atividade intelectual: por obediência às superioras, concluiu a obra Ser finito e ser eterno, ampla síntese metafísica que busca o sentido do ser à luz da fé, e mais tarde redigiu A ciência da Cruz, estudo sobre São João da Cruz que permaneceu inacabado por causa de sua prisão. Para ela, a verdadeira sabedoria cristã não é apenas conhecimento teórico, mas participação viva no mistério pascal de Cristo. Após a Noite dos Cristais, em 31 de dezembro de 1938, foi transferida para o Carmelo de Echt, na Holanda, a fim de não expor as irmãs alemãs ao perigo; sua irmã Rosa, também convertida, juntou-se a ela.
Em 26 de julho de 1942, os bispos católicos holandeses fizeram ler em todas as igrejas uma carta pastoral condenando a deportação dos judeus. Em represália, as autoridades nazistas ordenaram a prisão de todos os católicos de origem judaica do país. Em 2 de agosto de 1942, Edith e Rosa foram detidas no convento de Echt. Segundo testemunhas, Edith tomou a mão da irmã e disse: 'Vem, vamos pelo nosso povo'. Passando pelos campos de Amersfoort e Westerbork, onde sobreviventes recordaram sua calma e o cuidado materno com as crianças abandonadas, foi deportada para Auschwitz-Birkenau, onde morreu na câmara de gás em 9 de agosto de 1942. Já havia oferecido sua vida a Deus em expiação e pela paz, unindo seu destino ao do povo judeu e ao de Cristo crucificado.
São João Paulo II beatificou-a em Colônia, em 1º de maio de 1987, como mártir, e canonizou-a em Roma em 11 de outubro de 1998. Pela carta apostólica Spes aedificandi, de 1º de outubro de 1999, declarou-a copadroeira da Europa, e na encíclica Fides et ratio a apresentou como exemplo do itinerário filosófico que, levado com honestidade, se abre à luz da Revelação. Sua memória litúrgica celebra-se em 9 de agosto. Santa Teresa Benedita da Cruz permanece como sinal de reconciliação entre judeus e cristãos, testemunha da harmonia entre fé e razão, modelo para a vocação feminina e intercessora de todos os que buscam a verdade, pois, como ela mesma escreveu, quem busca a verdade busca a Deus, quer saiba disso, quer não.