Santos3 min de leituraFesta: 23 de outubro

São João de Capistrano, presbítero

Jurista convertido, frade franciscano e grande pregador do século XV, São João de Capistrano animou a defesa de Belgrado em 1456 e morreu em Ilok.

São João de Capistrano é um dos mais notáveis pregadores e reformadores do século XV. Frade franciscano da Observância, percorreu a Itália e a Europa Central anunciando a penitência e a conversão, trabalhando pela reforma da vida religiosa e pela defesa da Cristandade. A Igreja celebra sua memória facultativa em 23 de outubro, dia de sua morte. Na reforma do calendário de 1969, a data foi transferida de 28 de março para esse dia.

João nasceu em 24 de junho de 1386, em Capestrano, pequena localidade dos Abruzos, então parte do Reino de Nápoles. Seu pai era, segundo a tradição, um nobre de origem alemã ou francesa. Estudou Direito Civil e Canônico em Perúgia, onde se destacou pela inteligência e pela habilidade jurídica. Ainda jovem, ocupou altos cargos públicos e chegou a ser governador ou juiz da cidade, com futuro promissor na carreira civil. Em 1416, durante o conflito entre Perúgia e os Malatesta, foi feito prisioneiro. No cárcere, a experiência da fragilidade humana e da vaidade das honras terrenas provocou nele profunda conversão.

Libertado, renunciou à carreira e aos bens e, em 1416, ingressou na Ordem dos Frades Menores, no ramo da Observância, que buscava viver com maior fidelidade a Regra de São Francisco. Teve como mestre São Bernardino de Sena, de quem herdou o zelo apostólico e a devoção ao Santíssimo Nome de Jesus. Ordenado sacerdote por volta de 1420, dedicou-se intensamente à pregação. Atraía multidões nas praças e nas igrejas e obtinha numerosas conversões, reconciliações entre inimigos e restituições de bens mal adquiridos. Ao lado de São Bernardino, defendeu diante da Santa Sé a legitimidade do culto ao Nome de Jesus, então contestado por alguns.

Sua formação jurídica e sua firmeza fizeram dele um homem de confiança dos Papas. Martinho V, Eugênio IV, Nicolau V e Calisto III confiaram-lhe missões diplomáticas, encargos de legado e tarefas de inquisidor. Trabalhou contra os grupos dissidentes conhecidos como fraticelli e esteve envolvido nos esforços de união com as Igrejas orientais na época do Concílio de Florença. Dentro da Ordem, foi vigário-geral da Observância e lutou para consolidar a reforma franciscana, sempre com grande austeridade pessoal. Seu zelo incansável teve também traços duros, próprios da mentalidade de seu tempo, como alguns sermões contra comunidades judaicas, que a historiografia atual examina com espírito crítico.

Em 1451, Nicolau V enviou-o à Europa Central, onde pregou na Áustria, na Boêmia, na Morávia, na Alemanha, na Polônia e na Hungria. Combateu as doutrinas hussitas, fundou conventos e reavivou a fé de populações inteiras. Pregava em latim e era traduzido por intérpretes, mas o vigor de sua palavra e o testemunho de sua vida comoviam até quem não o entendia diretamente. Após a queda de Constantinopla em 1453, o avanço do Império Otomano tornou-se ameaça iminente para a Europa cristã. O Papa Calisto III encarregou-o de pregar a cruzada para a defesa da Hungria.

Já idoso, João percorreu cidades e aldeias reunindo voluntários, sobretudo camponeses e gente simples. Em julho de 1456, juntamente com o comandante húngaro João Hunyadi, participou da defesa de Belgrado, sitiada pelo exército do sultão Maomé II. Animou pessoalmente os combatentes, empunhando a cruz e invocando o Nome de Jesus. A vitória cristã de 22 de julho de 1456 deteve por várias décadas o avanço otomano rumo ao coração da Europa. Esse acontecimento está ligado ao costume do sino do meio-dia, que Calisto III mandara tocar para pedir a oração dos fiéis pela defesa da Cristandade.

Poucos meses depois, enfraquecido pelas fadigas e atingido pela peste que se espalhara no acampamento, João morreu santamente em 23 de outubro de 1456, em Ilok, na atual Croácia. Foi canonizado em 1690 pelo Papa Alexandre VIII. É venerado como padroeiro dos juristas e dos capelães militares. Sua vida mostra que a verdadeira grandeza está na entrega total a Cristo. O jurista ambicioso tornou-se pobre frade e apóstolo incansável, colocando todos os seus dons a serviço do Evangelho e da unidade da Igreja. Sua memória convida os fiéis a uma conversão sincera, ao amor pelo Nome de Jesus e à coragem de testemunhar a fé em tempos difíceis.

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