Santos4 min de leituraFesta: 19 de outubro

São João de Brébeuf, Santo Isaac Jogues e companheiros, mártires

Memória dos oito mártires jesuítas da América do Norte, mortos entre 1642 e 1649 na evangelização dos hurões e iroqueses.

No dia 19 de outubro, a Igreja celebra a memória dos santos João de Brébeuf e Isaac Jogues, presbíteros, e seus companheiros, mártires (memória facultativa no Calendário Romano geral, e obrigatória no Canadá e nos Estados Unidos), conhecidos também como os Mártires da América do Norte ou Mártires Canadenses. Trata-se de oito missionários ligados à Companhia de Jesus que deram a vida entre 1642 e 1649 na missão da Nova França, nas terras dos povos hurões (wendat) e iroqueses, nos atuais territórios do Canadá e do estado de Nova York, nos Estados Unidos. Seis deles eram sacerdotes jesuítas: João de Brébeuf, Isaac Jogues, Antônio Daniel, Gabriel Lalemant, Carlos Garnier e Noel Chabanel. Os outros dois, René Goupil e João de La Lande, eram leigos consagrados ao serviço da missão, chamados 'donnés', isto é, doados, que se haviam oferecido gratuitamente para auxiliar os padres.

São João de Brébeuf nasceu em 1593 em Condé-sur-Vire, na Normandia, e ingressou na Companhia de Jesus em 1617. Chegou ao Canadá em 1625 e dedicou mais de duas décadas ao povo huron, cuja língua aprendeu com tal profundidade que redigiu catecismos e uma gramática, além de lhe ser atribuído o célebre canto natalino huron 'Jesous Ahatonhia', ainda hoje entoado no Canadá. Homem de grande estatura física e espiritual, adaptou-se com paciência aos costumes locais, convicto de que a fé deveria ser anunciada com respeito à cultura dos povos. Em março de 1649, durante a ofensiva iroquesa contra a Huronia, foi capturado na missão de Saint-Ignace junto com o jovem padre Gabriel Lalemant. Ambos sofreram torturas atrozes: Brébeuf morreu em 16 de março, e Lalemant no dia seguinte, após longas horas de suplício suportadas com admirável serenidade.

Santo Isaac Jogues nasceu em Orléans, na França, em 1607, e chegou à Nova França em 1636. Em 1642, ao regressar de uma viagem a Quebec, foi capturado pelos mohawks, uma das nações iroquesas, juntamente com René Goupil e alguns cristãos hurões. Submetido a espancamentos e mutilações, teve vários dedos decepados ou triturados. René Goupil, que havia feito votos como irmão da Companhia pouco antes, foi morto a golpes de machadinha em 29 de setembro de 1642, por ter traçado o sinal da cruz sobre a fronte de uma criança, tornando-se o primeiro destes mártires. Jogues permaneceu cativo por mais de um ano, batizando secretamente e consolando os prisioneiros, até conseguir fugir com a ajuda de colonos holandeses.

De volta à França, Isaac Jogues foi recebido como um confessor da fé. Como suas mãos mutiladas o impediam de celebrar a Missa segundo as normas litúrgicas então vigentes, obteve do Papa Urbano VIII uma dispensa especial, acompanhada, segundo a tradição, da frase: 'Seria indigno que a um mártir de Cristo fosse negado beber o sangue de Cristo'. Movido por amor aos mesmos que o haviam torturado, retornou ao Canadá em 1644. Em 1646 foi enviado em missão de paz junto aos mohawks, e depois voltou como missionário ao povoado de Ossernenon, hoje Auriesville, em Nova York. Ali, acusado de ter trazido doenças e más colheitas, foi morto com uma machadinha em 18 de outubro de 1646. No dia seguinte, seu companheiro João de La Lande teve a mesma sorte.

Os demais companheiros caíram durante a destruição das missões hurônicas. Santo Antônio Daniel foi morto em 4 de julho de 1648, na missão de Saint-Joseph (Teanaostaiaé), enquanto celebrava e protegia seus fiéis, depois de batizar às pressas os catecúmenos diante do ataque inimigo. Santo Carlos Garnier foi assassinado em 7 de dezembro de 1649, na aldeia de Etharita, morrendo enquanto se arrastava, ferido, para dar a absolvição a um moribundo. No dia seguinte, Santo Noel Chabanel foi morto por um huron apóstata. Chabanel é especialmente comovente: sentia profunda repugnância pela vida na missão e grande dificuldade com a língua, mas fizera voto de permanecer nela até a morte, oferecendo a Deus sua aridez interior como sacrifício.

Os oito mártires foram beatificados pelo Papa Pio XI em 1925 e canonizados por ele mesmo em 29 de junho de 1930. São venerados como padroeiros secundários do Canadá, e seus principais santuários encontram-se em Midland, Ontário, junto às ruínas reconstruídas da missão de Sainte-Marie entre os Hurões, e em Auriesville, Nova York, local do martírio de Goupil, Jogues e La Lande. É significativo que, poucos anos depois, em 1656, tenha nascido na mesma Ossernenon Santa Kateri Tekakwitha, a primeira santa indígena da América do Norte, como fruto do sangue derramado pelos missionários, conforme a antiga sentença de Tertuliano segundo a qual o sangue dos mártires é semente de cristãos.

A liturgia desta memória recorda que Deus quis consagrar as primícias da fé em toda a região da América do Norte pela pregação e pelo sangue destes santos, e pede que, por sua intercessão, a fé cresça por toda parte. Seu testemunho ilumina a teologia da missão: a evangelização autêntica nasce do amor gratuito, exige inculturação paciente e encontra sua expressão suprema na configuração com Cristo crucificado. Os escritos espirituais de Brébeuf, que fez voto de nunca recusar a graça do martírio, revelam que eles não buscavam a morte por si mesma, mas a plena união com o Senhor. Celebrá-los é, para a Igreja, um convite a renovar o ardor missionário e a perseverança na fé, mesmo diante da incompreensão, do fracasso aparente e da perseguição.

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