A Reforma Gregoriana designa o movimento de renovação eclesial que vareu a Igreja Ocidental no século XI, atingindo seu clímax sob o pontificado de Gregório VII (1073–1085), embora suas raízes remontem ao movimento monástico de Cluny (fundado em 910) e aos pontífices reformistas Leão IX (1049–1054) e Nicolau II (1059–1061). O contexto era de profunda crise: a prática da simonia (compra e venda de cargos eclesiásticos) e a investidura laica (nomeação de bispos e abades por príncipes seculares) haviam subordinado a Igreja às dinâmicas feudais, comprometendo a independência e a pureza moral do clero.
Hildebrando de Toscana, eleito papa em 1073 com o nome de Gregório VII, sistematizou as pretensões reformistas no Dictatus Papae (1075): 27 proposições que afirmavam a supremacia absoluta do papa sobre toda a Igreja e, em certos aspectos, sobre os poderes seculares. Entre elas: apenas o papa pode convocar concílios ecumênicos, depor bispos e desligar súditos do juramento de fidelidade a um soberano iníquo. A proibição da investidura laica — a nomeação de bispos pelo rei mediante a entrega do báculo e do anel — provocou o conflito direto com o imperador Henrique IV.
A «Querela das Investiduras» atingiu seu ponto dramático em janeiro de 1077: excomungado e com o império ameaçado de dissolução, Henrique IV cruzou os Alpes no inverno e se apresentou diante do castelo de Canossa, onde Gregório VII se encontrava. Durante três dias, o imperador permaneceu descalço na neve em sinal de penitência, até que o papa — agindo mais como pastor do que como político — levantou a excomunhão. «Ir a Canossa» tornou-se expressão idiomática para a humilhação política. O conflito, porém, não estava resolvido: Gregório seria expulso de Roma em 1084 e morreria em exílio em Salerno em 1085.
A Reforma Gregoriana transformou duravelmente a estrutura da Igreja Ocidental. A bula Cuncta per mundum de Nicolau II (1059) transferiu a eleição papal do clero e do povo romano para o colégio dos cardeais, forma que subsiste até hoje. O celibato clerical, reafirmado com vigor, separou progressivamente o clero do mundo laico e reforçou sua identidade corporativa. A distinção entre poder espiritual e temporal — que Gregório tentou resolver com a supremacia eclesiástica — alimentaria os debates medievais sobre a «plenitudo potestatis» papal e influenciaria o desenvolvimento do direito canônico, da escolástica política e, por reação, do pensamento laico moderno.