O Grande Cisma de 1054 marca a ruptura formal entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa de Constantinopla, embora a separação tenha sido o resultado de séculos de tensão acumulada e não de um único evento. As causas são múltiplas: teológicas (a questão do Filioque), eclesiológicas (a extensão do primado do bispo de Roma), litúrgicas (diferenças nos ritos e no celibato clerical) e políticas (a crescente autonomia dos impérios do Ocidente e do Oriente).
A querela do Filioque — do latim «e do Filho» — foi a disputa teológica mais importante. O Ocidente havia inserido no Credo Niceno-Constantinopolitano a afirmação de que o Espírito Santo procede «do Pai e do Filho», enquanto o Oriente mantinha a fórmula original «do Pai». Para os orientais, a adição era uma falsificação do credo conciliar e uma heresia pneumatológica; para os ocidentais, era um desenvolvimento legítimo da teologia agostiniana. O Patriarca Fócio de Constantinopla havia condenado o Filioque no século IX (872), criando o chamado «Cisma Fócio» — precursor de 1054.
Os eventos de julho de 1054 foram precipitados por um conflito de jurisdição: o legado papal Humberto de Silva Cândida e o Patriarca Miguel Cerulário protagonizaram trocas de documentos acusatórios. Em 16 de julho de 1054, Humberto depositou sobre o altar de Santa Sofia uma bula de excomunhão contra Cerulário; dias depois, o patriarca convocou um sínodo que excomungou os legados. As excomunhões foram formalmente declaradas nulas pelo Papa Paulo VI e pelo Patriarca Atenágoras em 1965, num gesto de reconciliação que não restabeleceu a comunhão plena mas inaugurou o diálogo ecuménico contemporâneo.
O Cisma de 1054 teve consequências históricas de longo alcance: separou duas grandes famílias cristãs que somam hoje cerca de 1,3 bilhão de católicos e 300 milhões de ortodoxos. A Cruzada de 1204, que resultou no saque de Constantinopla pelos cruzados latinos, aprofundou a ferida de modo talvez mais decisivo do que o próprio 1054. O diálogo teológico oficial entre catolicismo e ortodoxia, retomado na Comissão Mista Internacional em 1980, aborda temas como o primado, a sinodalidade e o Filioque, num processo que Francisco e o Patriarca Ecuménico Bartolomeu I têm procurado acelerar.