O Concílio de Niceia (325) foi o primeiro concílio geral da Igreja cristã, convocado pelo imperador Constantino I na cidade de Niceia, na Bitínia (atual Iznik, Turquia). O contexto imediato era a crise ariria: Ário, presbítero de Alexandria, ensinava que o Filho de Deus era uma criatura — «houve um tempo em que ele não era» — subordinado ao Pai e criado antes de todas as coisas. A doutrina conquistou amplo apoio no Oriente e ameaçava a unidade da Igreja recentemente saída das perseguições. Constantino, que via na divisão religiosa uma ameaça à coesão do Império, convocou os bispos para resolver a questão.
Cerca de 250 a 318 bispos reuniram-se em Niceia em maio de 325, quase todos do Oriente. Após debate intenso, o concílio rejeitou a fórmula ariana e adotou o termo homoousios (consubstancial, da mesma substância) para expressar a relação entre Pai e Filho. A definição foi acolhida por todos os bispos presentes exceto dois, que foram exilados junto com Ário. O concílio promulgou também o Credo Niceno — base do Credo Niceno-Constantinopolitano rezado na Missa — e fixou a data da Páscoa segundo um cálculo lunar uniforme, resolvendo a controvérsia quartodecimana.
A vitória de Niceia não foi imediata: o arianismo sobreviveu durante décadas com o apoio de imperadores como Constâncio II, que forçou vários bispos ortodoxos ao exílio, incluindo Atanásio de Alexandria («Atanásio contra o mundo» — Athanasius contra mundum). O Concílio de Constantinopla (381), convocado por Teodósio I, confirmou Niceia, expandiu o Credo para incluir a doutrina do Espírito Santo e encerrou definitivamente o domínio ariano no Império Romano do Oriente.
O legado de Niceia transcende a questão ariana: inaugurou a era dos concílios ecumênicos como instrumento de definição doutrinal e de governo colegial da Igreja, e estabeleceu o precedente da colaboração — e da tensão — entre poder imperial e autoridade eclesiástica. A lista dos sete concílios ecumênicos reconhecidos por católicos, ortodoxos e algumas tradições protestantes começa sempre em Niceia 325. Teólogos como Karl Barth e Hans Küng consideraram a definição nicena um momento axial não apenas da história da Igreja, mas da história da cultura ocidental.