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A Graça Atual e a Graça Habitual

A distinção católica entre a graça habitual, dom permanente que santifica a alma, e a graça atual, auxílio transitório de Deus para agir bem.

A doutrina católica sobre a graça ensina que a salvação do homem é, do começo ao fim, obra gratuita de Deus, que convida a criatura humana a cooperar livremente. Dentro dessa doutrina, a teologia distingue duas formas principais da graça santificante em sentido amplo: a graça habitual e a graça atual. O Catecismo da Igreja Católica resume essa distinção ao afirmar que a graça habitual é a disposição permanente para viver e agir segundo o chamado divino, distinguindo-se das graças atuais, que designam as intervenções divinas, seja na origem da conversão, seja no decurso da obra de santificação (CIC 2000).

A graça habitual, também chamada graça santificante, é um dom estável e sobrenatural que aperfeiçoa a própria alma, tornando-a capaz de viver com Deus e de agir por amor a Ele. Por meio dela, o cristão torna-se, segundo a expressão de São Pedro, 'participante da natureza divina' (2Pd 1,4), filho adotivo de Deus e templo do Espírito Santo. Ela é recebida ordinariamente no Batismo, que apaga o pecado original e infunde na alma, juntamente com essa graça, as virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade, bem como os dons do Espírito Santo. O Concílio de Trento, em sua sexta sessão (1547), ensinou que a causa formal da justificação é a justiça de Deus, não aquela pela qual Ele próprio é justo, mas aquela pela qual nos torna justos, isto é, uma justiça realmente inerente à alma, e não apenas imputada de fora.

Por ser um estado permanente, a graça habitual pode crescer, sobretudo pela recepção dos sacramentos e pela prática das boas obras feitas em caridade, mas também pode ser perdida. O pecado mortal destrói a caridade no coração do homem e o priva da graça santificante, separando-o da amizade com Deus. Por isso a Igreja oferece o sacramento da Penitência, chamado pelos Padres de 'segunda tábua de salvação depois do naufrágio da graça perdida', pelo qual o pecador arrependido recupera o estado de graça. Viver e morrer em estado de graça é a condição necessária para alcançar a vida eterna.

A graça atual, por sua vez, é um auxílio transitório de Deus que atua sobre as faculdades da alma no momento em que é preciso agir. Ela ilumina a inteligência, para que conheça o bem a fazer, e move e fortalece a vontade, para que o deseje e o realize. Diferentemente da graça habitual, não é um estado, mas um impulso passageiro, ligado a atos concretos. É pela graça atual que Deus prepara o pecador para a conversão, suscita nele o primeiro movimento de fé e arrependimento, e também sustenta o justo nas tentações, nas decisões difíceis e na perseverança. Jesus afirma: 'sem mim nada podeis fazer' (Jo 15,5), e São Paulo recorda que 'é Deus quem opera em vós o querer e o fazer' (Fl 2,13).

Essa doutrina foi elaborada historicamente sobretudo em resposta ao pelagianismo, que exaltava a capacidade humana de fazer o bem sem auxílio interior de Deus. Santo Agostinho, chamado Doutor da Graça, defendeu a absoluta necessidade da graça para toda obra salvífica, e o Segundo Concílio de Orange (529) declarou que até o início da fé e o desejo de crer são dons da graça, e não fruto das forças naturais. Mais tarde, São Tomás de Aquino sistematizou o tema na Suma Teológica (I-II, q. 109-114), distinguindo a graça como hábito, que é qualidade da alma, e a graça como moção divina, e ainda a graça operante, pela qual Deus age em nós sem nós, e a graça cooperante, pela qual Ele age em nós conosco.

A teologia distingue ainda a graça atual suficiente, que dá a capacidade real de agir bem, e a graça eficaz, que efetivamente conduz ao ato bom. A relação entre a eficácia da graça e a liberdade humana foi objeto de célebre debate entre teólogos dominicanos, liderados por Domingo Báñez, e jesuítas, seguidores de Luis de Molina, na chamada controvérsia De auxiliis. O Papa Paulo V encerrou as discussões em 1607 sem condenar nenhuma das escolas, proibindo que se acusassem mutuamente de heresia. Permanece firme, porém, o ensinamento de Trento: a graça não suprime a liberdade, e o homem pode consentir à moção divina ou recusá-la.

As duas formas da graça não se opõem, mas se complementam no caminho da santidade. A graça habitual estabelece o cristão de modo duradouro na amizade divina, enquanto as graças atuais o acompanham a cada passo, preparando-o para receber a graça santificante, ajudando-o a conservá-la e fazendo-a frutificar em obras de amor. Toda a vida cristã é, assim, uma resposta contínua à iniciativa de Deus, que, como ensina o Catecismo, ao coroar os nossos méritos, coroa os seus próprios dons (CIC 2006-2011).

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